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quarta-feira, 18 de outubro de 2017

O grande mito das raças no Brasil: repensemos

Pernambucano, sociólogo, ensaísta e escritor, Gilberto Freyre traz constantes recordações de sua mais simbólica obra Casa Grande & Senzala. Neste ano de 2017 completa-se 30 anos desde a morte do autor que teve enorme importância na construção da sociologia moderna brasileira, procurando compreender o que significava ser brasileiro. A noção de uma “democracia de raças” foi inaugurada por Freyre com o intuito de expor o cenário nacional, onde diferentes raças aqui presentes se encontraram e se misturaram para originar a nação brasileira. As relações “harmônicas” entre essas raças divergentes permitiram o Brasil ter a identidade que lhe é digna até o presente momento. Com as raízes na miscigenação e na dita democracia, o sociólogo mostra em seus estudos que ser proveniente deste país antes chamado de Pindorama era uma expressão de democracia racial, isto é, de um regime de igualdade para com diferentes raças. Contudo, Gilberto Freyre não era antropólogo e deixou isso claro quando recebeu críticas sobre a falta de empirismo de seus estudos. Desse modo e sendo o tema do mito das raças algo tão drasticamente e irrevogavelmente contemporâneo, é necessário analisar este conceito de raça mais detalhadamente para enxergar qual democracia está de fato enraizada no Brasil.
É com a licença de todo cidadão e cidadã desta pátria amada que inicio o texto para falar desta temática polêmica. O tema “raça” é criticado, ignorado, estereotipado, desprezado, refutado e privilegiado. Criticado porque o senso comum não define raça como os dicionários fazem ou como os biólogos acadêmicos, cientistas político-sociais e antropólogos pesquisam e provam, desviando assim sua interpretação adequada. Ignorado porque a cada ano deste século XXI a segregação racial permanece como pilar fatorial da nacionalidade brasileira. Estereotipado perante os olhos de futuras mentalidades nacionais, uma vez que o legado deixado é de que vizinho é sempre diferente, ou melhor ou pior que nós. Desprezado e esquecido em sua relevância para a formação de cada indivíduo no âmbito educacional, cultural e identitário. E, por fim, privilegiado àqueles que têm a oportunidade de estudar no ensino fundamental, no ensino médio e no ensino superior teses e livros sobre o quão problemático é a compreensão de tal tema. O acesso à informação no Brasil ainda é pouco democrático.
À princípio, o famoso “mito das raças”, sobretudo no Brasil, procura desvendar, de uma maneira biológica, a “democracia” presente em países miscigenados. O senso comum elucida uma caracterização dos países tropicais e “misturados”, interpretando as diferentes heranças obtidas na raiz do povo daquele território. A palavra “raça”, proveniente do latim ratio, significa, comumente, categorizar algo, abrir novas diretrizes de determinada designação ou encontrar subgrupos para tal descrição. E é assim que começa a confusão: raça é uma categoria de espécie utilizada pela biologia como forma de classificação de qualquer ser vivo. Ademais, os graus de classificação foram se tornando cada vez mais amplos à medida que a ciência categorizava os diferentes seres existentes no planeta que hoje habitamos. O ator da novela, a advogada do seu tio, o vizinho da esquina, o vizinho de porta, o médico da sua avó, a professora do seu filho, o carteiro da sua rua, o atendente da farmácia, o faxineiro do prédio, a babá do seu primo e qualquer outro indivíduo que passe por nós no dia a dia pertence ao mesmo ordenamento científico: reino animal, filo cordados, classe dos mamíferos, ordem dos primatas, família dos hominídeos, gênero Homo e, finalmente, espécie Homo sapiens. O conceito de “raça” na biologia é, portanto, inexistente quando o ponto erguido é a espécie humana, uma vez que não existe nenhuma divisão genética biológica advinda do Homo sapiens, tanto mais evoluída quanto menos evoluída. Todos os continentes do planeta Terra englobando todos os seus respectivos países possuem a mesma espécie Homo sapiens como popularmente vangloriada e chamada de ser humano.
Mas, no decorrer da construção das sociedades, surgiu o termo social utilizado para “raça” que fundamenta o senso comum da determinação de grupos étnicos a partir das características genéticas. Em virtude disso, as nomeadas “raças” rotulam as diferenças entre os seres humanos pela cor da pele, pela característica física ou pela origem social/étnica de cada um. Essa designação pressupõe que existem divergências evolutivas e expressivas entre indivíduos de cores ou origens/nacionalidades distintas. Tal relação e subgrupo da espécie humana é cientificamente equivocada e traz uma abordagem antropológica e sociológica de “raça” como uma corrente do Homo sapiens constantemente refutada. Raça e etnia não são sinônimos. Etnia e grupos étnicos são indivíduos que compartilham, ou não, de uma mesma cultura/religião/língua e até mesmo das características físicas. O termo raça serviria para classificar, biologicamente, subgrupos de uma espécie. E a espécie humana não possui subgrupos. Portanto, a ideia de “raça humana” é um conceito originário de séculos de senso comum que apenas fortificam e endossam o racismo e o preconceito, motivando e perpetuando a imagem de que existem seres superiores e seres inferiores. A comprovação deste abominável princípio humanitário foi verificada tanto na supremacia europeia do imperialismo quanto na aurora mundial que emanou a Alemanha nazista do século XX.
Para além disso, essa abordagem racista ampara a tão orgulhosa e complexa cultura miscigenada.  A palavra “miscigenação” representa a junção de um homem e de uma mulher de diferentes etnias. Contudo, o senso comum classifica o termo “raça” como sendo causador da miscigenação brasileira e oriundo da cor da pele branca, preta ou amarela. O indivíduo mestiço é aquele que nasce pelo cruzamento de duas etnias distintas e não pelo cruzamento de diferentes “raças humanas”, até porque um Homo sapiens com um Homo sapiens sempre originará novos Homo sapiens. No Brasil, o “mito das raças” se desenvolveu ao longo dos anos de colonização até os dias de “redemocratização”. Hoje em dia, permanece a ideia de raças distintas e seres humanos separados por seus ancestrais diversamente genéticos. Assim, em uma terra que um dia foi do pau Brasil hão de existir três raças distintas: o europeu, o africano e o indígena. A mistura delas sustentou e sustenta anos de interpretações falsas sobre os grupos humanos e seus significados sociológicos.
A escravidão, para citar o mais conhecido dos casos abomináveis de racismo na história do Brasil, não precisou de tais justificações para se concretizar no território brasileiro, uma vez que a colonização não foi um momento de equilíbrio de raças, mas sim de superioridade e violência. Então, concorrentemente, a escravidão se construiu em cima de uma discriminação generalizada entre colônias e metrópoles. Não houve a necessidade de reconhecer a diferença de raças evidente, porque o país não era democrático e a escravidão era legal. Artigos científicos que explicavam a hegemonia da “raça” europeia sobre a “raça” africana e indígena vingaram durante séculos e fazem parte da herança não só deste país, como da humanidade toda.  Mas com a procedência de governos imperiais, republicanos, ditatoriais, militares e democráticos, é sabido que a liberdade e a igualdade são direitos para todos os cidadãos, sem qualquer exceção. Com isso, fez-se necessário a interpretação de um Brasil de todos e todas, provando a solidariedade cidadã que agora aqui prestava. Desse modo, a ideia de uma nação de diferentes raças traz o sentimento de aceitação de todos para com o camuflado racismo embolsado de anos.
Nesse século XXI, o Brasil não tem todos os seus cidadãos com seus direitos “conquistados com braço forte” e muito menos um sol da liberdade que brilha para todos em “raios fúlgidos”. O hino nacional não representa a democracia de raças de Gilberto Freyre e nem mesmo a democracia que é garantida na Constituição Federal do país. Como prova disso, nas últimas décadas, a ideia de raça começou a ser relacionada à ideia de multiculturalismo, isto é, ao invés da antiga suposição do gene sendo o fator determinante de cada homem ou mulher sobre sua raça, a cultura agora confiscou esse papel, mesmo ela não sendo a caracterização essencial na vida de cada um. O multiculturalismo é sim importante para o diálogo entre indivíduos e grupos humanos, para o aprimoramento da cidadania em diferentes partes do mundo e para a convivência pacífica de grupos culturais em um mesmo território, sempre em nome da evolução da sociedade. Infelizmente a escravidão diminuiu com o tempo, mas o racismo permaneceu nas consciências.

Por isso e por toda a luta à frente, garanto àqueles que defendem uma cor da pele como determinante genético de um ser humano que a ciência jamais justificará o preconceito. 

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

Contemporaneidade política e ABC maquiavélico: Putin e Lula?


Nicolau Maquiavel ilustrou-se como uma figura, ao decorrer dos séculos, estereotipada pelas diversas interpretações políticas herdadas de seu livro O Príncipe. Para o poeta, diplomata, músico e, finalmente, cientista político, era necessário a criação de um campo de estudo próprio para os políticos, fundamentando toda a visão realista aos governantes e ao conceito da evidente inevitabilidade de se fazer política. Este “pai da política moderna” concebeu a concepção de verdade efetiva das coisas e denominou que a política não deveria seguir regras morais e sim regras próprias, despertando a consciência coletiva de que, se existe algo em comum entre todas as nações e todas as culturas, é a busca pelo bom governo, pela digna coletividade. 

Maquiavel determinou que duas coisas sempre acompanhariam o potencial do homem: sua fortuna e sua virtú. A primeira seria a capacidade objetiva de mudar a história, a sorte sendo favorável ou desfavorável ao contexto em que o príncipe será inserido. E a virtú viria da capacidade subjetiva de mudar a história, da deliberação madura, do esforço de pôr ordem. Portanto, metade de nossas ações é governada pela sorte, de certa forma predestinada, e a outra metade está norteada pelas nossas irremediáveis tentativas de lidar com a desordem natural do homem. O fato é que seus ensinamentos vão além do seu tempo e, por isso, Maquiavel se mostra um clássico que até hoje precisa ser estudado diante das posições políticas e geopolíticas globais. 

Vladimir Putin, político peculiar, dialoga abertamente com as teorias maquiavélicas. Presidente da Rússia desde 1999, Putin tipifica a frase “o fim justifica os meios” e traz consigo a rigidez aos rebeldes chechenos, o resgate do nacionalismo russo e as atitudes que lembram em parte o regime soviético e o czarismo. A Rússia, antes de Vladimir Putin, era sinônimo de piada mundial sob a presidência de Bóris Yeltsin, notório bêbado, que delegava uma das piores crises econômicas da história do país. Desse modo, eis sabiamente a razão para crescer a força de uma citação maquiavélica: “Assim, quando a nação encontra-se ameaçada de deterioração, quando a corrupção alastrou-se, é necessário um governo forte, que crie e coloque seus instrumentos de poder para inibir a vitalidade das forças desagregadoras e centrífugas.”

Ergueu-se sobre as raízes fortes da fortuna russa um príncipe pronto para governar com mãos de ferro um país desestabilizado economicamente e socialmente. Sua condição objetiva para mudar a realidade do país nasceu justamente do sentimento e do descontentamento popular atropelado por uma ordem de poder completamente nula. Entretanto, fica evidente que, ao ter uma fortuna de tamanha dimensão, o novo presidente iria mostrar a verdadeira maneira de “fazer política”. Vladimir Putin, sendo antigo diretor da KGB e ex-primeiro ministro, começou a construir seu império sobre as cinzas de uma Rússia devastada pela imagem internacional, envergonhada frente às potências mundiais e desgostosa com a situação econômica. Futuro mito e herói nacional, ele conseguiria fazer da Rússia o novo Oriente médio para a Europa. Mostrando ser um homem de estratégia, conseguiu deixar o continente europeu dependente do gás natural russo e assim emergiu economicamente. 

Retirando o país da crise e trazendo de volta a Rússia da Guerra Fria, capaz de afrontar os Estados Unidos da América, Vladimir Putin ressuscitou o sentimento nacionalista russo e mostrou-se um grande governador de virtú, crescendo aos olhos da população. Um príncipe capaz de mudar a história da Rússia, capaz de a tornar uma nova potência energética, militar e política nas bancadas internacionais. Em nome da elevação russa e no palco do sucesso e superioridade recuperada após anos na platéia, o país descortinou inúmeras vezes o que Maquiavel apropriou como sendo um governante digno de suprir sua população, mesmo que as medidas utilizadas tenham sido lícitas ou não, legais ou não, cruéis ou não. Não é à toa que o grande dilema maquiavélico se dispara na paisagem do país euroasiático: “É melhor ser temido do que ser amado.”

Desse modo, é evidente a razão pela qual Putin até hoje se mantém no poder: a herança Yeltsin de uma realidade russa deplorável é vista como a fortuna ideal para se governar avidamente a favor de uma transformação econômica positiva no país, perpetuando e resgatando a imagem de uma Rússia com poderio internacional e guiada por um governando de virtú.

Contudo, não é preciso ir tão longe para se observar uma grande relação de liderança contemporânea com os princípios de Maquiavel. O Brasil mesmo tem em seu legado um nome que durante muito tempo se concretizou como sinônimo de herói nacional: Luiz Inácio Lula da Silva. O líder sindicalista brasileiro nasce da citação maquiavélica “Quem se encontre à frente de uma província diferente, […] tornar-se chefe e defensor dos menos fortes, tratando de enfraquecer os poderosos e cuidando que em hipótese alguma aí penetre um forasteiro tão forte quanto ele.” Foi dessa maneira que Lula ascendeu em meio aos oprimidos para representar aqueles que nunca haviam tido verdadeira representatividade. Sua fortuna foi evidente: a crise da inflação e o plano real de FHC estabilizados na economia, mas inerentes à necessidade de desenvolver políticas sociais para o povo. A população clamava por um líder que a entendesse, que olhasse para a fome e a para a seca no Nordeste e não apenas para as privatizações que pareciam avançar desesperadamente, E, como dito pelo próprio Maquiavel, o Príncipe que é eleito pelo Povo tem mais poder do que aquele que fora eleito pelos aristocratas.

Assim, Lula elegeu-se em um palco de descontentamento social e passou a ser o herói que ergueu-se: o Gandhi brasileiro. Sua fortuna foi boa e eficiente, com o apoio do povo que precisava. Com o legado do bolsa família, conseguiu mostrar-se um governante que prezava pelo aprimoramento da cidadania além do aprimoramento da economia. Tornou a ser um governante de virtú aos olhos do nascimento de programas sociais como o Fome zero, o Peti, o Primeiro Emprego, FIES, ProUni, entre outros. Mas, acima de tudo, foi um governante de virtú aos olhos do povo.

Maquiavel não diz o que é o poder substancialmente, mas garante que negar fazer política é eximir-se de fazer história. O que faz o sucesso do príncipe é a combinação efetiva da fortuna com a virtú, o que aconteceu em ambos os casos contemporâneos de Lula e de Putin. São realidade diferentes, mas os dois líderes guiaram a nação para um novo caminho ansiado por todos e virtuoso para ambos governantes manterem-se no poder através de uma conciliação entre força e consentimento. Afinal, o legado deixado por Maquiavel não sempre girou em torno de quem seria temido e de quem seria amado, mas sim de quem seguiria a vertente maquiavélica de que a um príncipe não é essencial possuir todas as qualidades mencionadas, mas é bem necessário parecer possuí-las. E tanto o sindicalista brasileiro quanto o atual presidente russo souberam gerenciar muito bem esse ensinamento em suas imagens perante a população. Eis, portanto, o então contínuo ABC maquiavélico, que permeia a nossa “ordem e progresso” e direciona o futuro da Rússia.

domingo, 2 de julho de 2017

Karl Marx: de frente ao vício tecnológico contemporâneo e à Escola sem Partido



A sociedade contemporânea do século XXI espelha-se em diversas polêmicas sociais que transparecem teorias marxistas de lidar com a realidade do homem pós- moderno. Não é à toa que hoje o ser humano dependa drasticamente de uma tecnologia mais feita para entreter os que não se sentem pertencentes do que educar aqueles que anseiam por conhecimento. Uma visão iluminista da sociedade brasileira atualmente é uma visão de emancipação individualista que cada vez mais cresce em detrimento da falta do sentimento de coletividade política, isto é, cresce o amplo desinteresse popular em acreditar na evolução do pensamento crítico. Esse acontecimento descreve uma evidente descrença social na superação dos obstáculos da vida de cada cidadão dentro de uma nação cheia de, como o escritor brasileiro Carlos Drummond diria, pedras no meio do caminho. 

O político e advogado brasileiro Ulisses Guimarães dizia “a política não suporta vácuo”. Essa afirmação não só desperta inúmeras interpretações na atual conjuntura nacional brasileira como reflete um pensamento marxista: os conflitos são essenciais no decorrer da história. E, desse modo, a amplitude política jamais estará parada, sempre haverá alguém pensando sobre a bolha na qual estão inseridos todos os indivíduos, mas esses pensantes devem se resumir na sociedade civil e não apenas àqueles com cargos burocráticos. O capitalismo como maior forma de exploração apenas será combatido com a construção da consciência política. 

Após a Terceira Revolução Industrial, conhecida como Revolução Técnico- Científica, a tecnologia tornou-se um meio de conhecimento muito almejado pelas pessoas em um planeta tão grande que engloba um mundo tão pequeno. O século XXI é um livro digital. Segundo a consultoria Strategy Analytics, o número de indivíduos conectados a redes sociais em dezembro de 2015 bateu na casa dos 2,2 bilhões, algo em torno de 31% da população mundial. Os brasileiros estão entre os maiores aficionados de redes sociais do planeta. Somos 93,2 milhões de usuários ativos que gastam 650 horas por mês navegando nessas mídias. E o que isso diz em relação às teorias marxistas? Uma grande semelhança ao que hoje se especula sobre os programas de Lei da Escola sem Partido. 

Como relatado pelo próprio Karl Marx, um grande filósofo materialista, o autodesenvolvimento humano não é ilimitado. Produção, para Marx, é uma palavra que faz alusão à auto-realização. O pensador alemão distingue o reino de liberdade e o reino de necessidade. Só é possível chegar ao reino da liberdade quando o reino da necessidade está absolutamente resolvido. Se hoje o homem é dependente da tecnologia de uma maneira tão evidente e alienante, então o que o mantém disposto a perceber que o capitalismo é uma coleção de mercadorias? Apenas um amontoado de redes sociais dispostas a ocupar sua vida enquanto outros, “acima de muitos”, pensam sobre política. E então encontramos um problema e uma crise da democracia ocidental: O papel dos conflitos sociais e das determinações coletivas. 

Marx reforça: A política passa pelo Estado, mas não permanece apenas nele. E, assim posto, podemos relacionar este anonimato de tecnologia capaz de enriquecer não a consciência cidadã, mas apenas seu lazer banal ao que marxistas enxergam em um país onde o programa de Lei chamado Escola sem Partido mostra-se possível. Se os projetos de lei vingarem, o Brasil estabelecerá um paradoxo: uma escola sem voz, sem liberdade, sem divergências, sem cidadania, sem questionamento, sem reflexão, sem política, sem economia, sem artes, sem apropriação de cultura. 

O marxismo possui diversas tendências, e uma delas, o leninismo, abraçaria o caso de uma Escola sem partido de maneira revolucionária, uma vez que Lênin e o Bolchevismo deixavam claro a grande solução e necessidade da construção da consciência social e política. Diante de uma instituição tão representativa da educação de seus futuros cidadãos como a escola, o marxismo leninista denunciaria o Estado como criador da “úlcera burocrática” que institucionaliza a necessidade de um controle do processo de conscientização, o processo da educação. Lênin e Stálin foram os rostos do capitalismo russo em crise, da construção do avanço de uma revolução e do socialismo chamado oriental do século XX. 

Muitos estudiosos contemporâneos se arriscam em dizer que a atual democracia ocidental está em crise. O grande pensador, filósofo e político italiano Gramsci lida exatamente com o lugar da política na democracia, reiterando o papel moral das instituições do Estado não simplesmente pela dualidade de comando e obediência, o papel de apenas comando do povo ou proletariado, mas sim de uma sociedade civil disposta a desenvolver e seguir instituições intermediárias para o continuo aprimoramento da cidadania, como as escolas e os meios de comunicação de massa. Desse modo, tanto o poderio digital contemporâneo quanto as escolas são o modo de trazer finalmente a discussão social política. Repreendê-los seria, irrevogavelmente, contra os ideais marxistas de conscientização. 

Portanto, o vício tecnológico comandado para o contínuo alienamento do cidadão “apolítico” brasileiro e mundial com as atuais polêmicas geopolíticas e a proposta de um Estado com escolas sem partido colidem com o cerne da teoria marxista de liberdade consciente política. Gramsci é o político que em seu legado deixa claro que, definitivamente, não é pelo caminho da mediocridade e do obscurantismo que as escolas melhorarão. Não é através da negação da política que se fará uma política adequada e digna de cidadania coletiva. O fundamentalismo da resolução desses dois problemas que percorrem o atual cenário brasileiro se daria através, portanto, do pensamento gramsciniano, defendendo a liberdade de uma sociedade civil ser devidamente e politicamente guiada tanto em um século tecnológico, quanto em um momento de crises institucionais.  

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Eternidade: coisas boas e coisas ruins


Hoje o tempo voa. Bate asas tão aleatoriamente que muitas vezes nem avistamos o horizonte em seu perfeito declínio. Embora o conhecimento humano já tenha capacidade suficiente para declarar que nenhum ser vivi infinitamente, a sociedade atual está transbordando minutos. Cada sorriso possui seus milésimos e segundos acumulados no interior para serem desperdiçados. É como se cada momento perdido fosse uma pressão impiedosa de nossos relógios para com nossas vidas que tão sutis celebramos. 
Um minuto a menos, outro a menos, e outro, e outro, e outro...
O encantamento do homem pelo prazer do viver se torna superior àquela capacidade de compreender que a eternidade nunca será presenciada por alguém. Sabemos que ela existe neste mundo de hipocrisia e perdão, mas nunca teremos a habilidade - se é que isso é algo digno de talento - de enxergar o fim deste desejo jamais anulado, até porque a eternidade é eterna e assim será para sempre. Você entende a maestria da eternização.
São os infinitos que amedrontam as ambiguidades da vida. Esta é a polêmica indefinida do infinito do amor. Pois o mesmo é mais forte que o infinito dos números. O mesmo segue seu contínuo sentimento. O mesmo apenas acontece: amamos e somos amados, às vezes infinitamente. Sentimentalismo talvez seja isso: um infinito desconhecido sem um pingo de razão. A infinidade numérica, repleta de motivos, é um amontoado de algarismos que se seguem porque possuem uma ordem, uma padronização matemática, um eixo que se desencadeia do menor ao maior, do zero ao infinito que se queira chegar. Da onde vem o infinito metafórico? Provavelmente da não compreensão, do desconhecimento, do rancor guardado ou da paixão engolida a seco. É através do sofrimento que a saudade nos habita e do amor que nos alucina.
Veia que deseja ou sangue que pulsa? Talvez seja ao contrário, mas para algumas pessoas a ordem não importa. Porque assim que funciona o sentimento em terra firme: nem os fins e nem os meios são indispensáveis quando a finitude nos atinge. Quando perdemos aqueles que deram e dariam de tudo para que a infinidade da relação fosse estabilizada e nunca mais danificada por ninguém, nem pelos deuses ditos lá em cima. Camões já dizia que o amor ardia como fogo e a cegueira nos era imposta para que o incêndio queimasse a pele, tão peculiar e tão insensível como uma ferida que dói e não se sente. E o quão destruidor é não ouvir a sinfonia da voz daqueles que partem para a constelação acima de nós? Não refletir os olhos na pupila que transparece a esperança e os motivos? É temer a felicidade que resulta da angústia de continuar a vida. E nós vamos rindo das meticulosidades temporárias da graça de viver. Mas haverá sempre o momento final de cada gargalhada e de cada escalada ao topo do mundo onde perceberemos que eternizar um sorriso é muito mais abrir mão da realidade do que abraçar a insanidade.
O tempo? Implacável. Afasta corpos e almas. Afasta aqueles com quem aprendemos a lutar e a retirar de qualquer dicionário próprio a palavra desistir. Dias passam a não ser mais dias, porque manhãs passam a ser uma única noite. É a lição que nem ele, o tempo, consegue concretizar no livro de aprendizados humanos. É o vazio irreparável que eterniza a concepção: a vida é uma questão de laços invisíveis e eternos em qualquer dimensão.
Contudo, acredito que o principal conceito para você seja a falha humana. O que poucos sabem e muitos ignoram é a capacidade incrível do ser humano de prometer falhar. Prometer errar constantemente e dedicar parte das 24 horas diárias à imperfeição. A humildade ultrapassa a capacidade de qualquer texto ou conjunto de palavras sem coerência, porque mostra aquele que sempre está disposto a aperfeiçoar. Saber que nada se sabe – frase essencial na contemporaneidade brasileira – é também um artifício para a evolução. O medo, por sua vez, não é admitir. É assumir muitos esquecimentos e jamais enterrá-los junto aos fracassos. Obrigada por me ensinar isso.
À eterna professora, mãe, amiga e inspiração. Acima de quaisquer palavras de saudade e necessidade está a gratidão. Maria da língua castelhana e do abraço inesquecível. O pudor humano revela o verdadeiro caráter da lamentação humana quanto ao tempo e às oportunidades perdidas ou às palavras não ditas. Se o tempo hoje realmente voa e bate asas, onde está a crença fiel da eternidade de alguns sentimentos? A resposta é irrelevante em palavras e muito significativa quando sentida, porque você me deu uma aula sobre como eu sempre serei eu mesma à medida que não sou a mesma quando outro minuto passa. Pequenas coisas e pequenos infinitos que jamais esqueceremos.
Tempo irreparável de coisas boas e coisas ruins. Isso também é eterno.

À minha eterna Maria.