domingo, 2 de julho de 2017

Karl Marx: de frente ao vício tecnológico contemporâneo e à Escola sem Partido



A sociedade contemporânea do século XXI espelha-se em diversas polêmicas sociais que transparecem teorias marxistas de lidar com a realidade do homem pós- moderno. Não é à toa que hoje o ser humano dependa drasticamente de uma tecnologia mais feita para entreter os que não se sentem pertencentes do que educar aqueles que anseiam por conhecimento. Uma visão iluminista da sociedade brasileira atualmente é uma visão de emancipação individualista que cada vez mais cresce em detrimento da falta do sentimento de coletividade política, isto é, cresce o amplo desinteresse popular em acreditar na evolução do pensamento crítico. Esse acontecimento descreve uma evidente descrença social na superação dos obstáculos da vida de cada cidadão dentro de uma nação cheia de, como o escritor brasileiro Carlos Drummond diria, pedras no meio do caminho. 

O político e advogado brasileiro Ulisses Guimarães dizia “a política não suporta vácuo”. Essa afirmação não só desperta inúmeras interpretações na atual conjuntura nacional brasileira como reflete um pensamento marxista: os conflitos são essenciais no decorrer da história. E, desse modo, a amplitude política jamais estará parada, sempre haverá alguém pensando sobre a bolha na qual estão inseridos todos os indivíduos, mas esses pensantes devem se resumir na sociedade civil e não apenas àqueles com cargos burocráticos. O capitalismo como maior forma de exploração apenas será combatido com a construção da consciência política. 

Após a Terceira Revolução Industrial, conhecida como Revolução Técnico- Científica, a tecnologia tornou-se um meio de conhecimento muito almejado pelas pessoas em um planeta tão grande que engloba um mundo tão pequeno. O século XXI é um livro digital. Segundo a consultoria Strategy Analytics, o número de indivíduos conectados a redes sociais em dezembro de 2015 bateu na casa dos 2,2 bilhões, algo em torno de 31% da população mundial. Os brasileiros estão entre os maiores aficionados de redes sociais do planeta. Somos 93,2 milhões de usuários ativos que gastam 650 horas por mês navegando nessas mídias. E o que isso diz em relação às teorias marxistas? Uma grande semelhança ao que hoje se especula sobre os programas de Lei da Escola sem Partido. 

Como relatado pelo próprio Karl Marx, um grande filósofo materialista, o autodesenvolvimento humano não é ilimitado. Produção, para Marx, é uma palavra que faz alusão à auto-realização. O pensador alemão distingue o reino de liberdade e o reino de necessidade. Só é possível chegar ao reino da liberdade quando o reino da necessidade está absolutamente resolvido. Se hoje o homem é dependente da tecnologia de uma maneira tão evidente e alienante, então o que o mantém disposto a perceber que o capitalismo é uma coleção de mercadorias? Apenas um amontoado de redes sociais dispostas a ocupar sua vida enquanto outros, “acima de muitos”, pensam sobre política. E então encontramos um problema e uma crise da democracia ocidental: O papel dos conflitos sociais e das determinações coletivas. 

Marx reforça: A política passa pelo Estado, mas não permanece apenas nele. E, assim posto, podemos relacionar este anonimato de tecnologia capaz de enriquecer não a consciência cidadã, mas apenas seu lazer banal ao que marxistas enxergam em um país onde o programa de Lei chamado Escola sem Partido mostra-se possível. Se os projetos de lei vingarem, o Brasil estabelecerá um paradoxo: uma escola sem voz, sem liberdade, sem divergências, sem cidadania, sem questionamento, sem reflexão, sem política, sem economia, sem artes, sem apropriação de cultura. 

O marxismo possui diversas tendências, e uma delas, o leninismo, abraçaria o caso de uma Escola sem partido de maneira revolucionária, uma vez que Lênin e o Bolchevismo deixavam claro a grande solução e necessidade da construção da consciência social e política. Diante de uma instituição tão representativa da educação de seus futuros cidadãos como a escola, o marxismo leninista denunciaria o Estado como criador da “úlcera burocrática” que institucionaliza a necessidade de um controle do processo de conscientização, o processo da educação. Lênin e Stálin foram os rostos do capitalismo russo em crise, da construção do avanço de uma revolução e do socialismo chamado oriental do século XX. 

Muitos estudiosos contemporâneos se arriscam em dizer que a atual democracia ocidental está em crise. O grande pensador, filósofo e político italiano Gramsci lida exatamente com o lugar da política na democracia, reiterando o papel moral das instituições do Estado não simplesmente pela dualidade de comando e obediência, o papel de apenas comando do povo ou proletariado, mas sim de uma sociedade civil disposta a desenvolver e seguir instituições intermediárias para o continuo aprimoramento da cidadania, como as escolas e os meios de comunicação de massa. Desse modo, tanto o poderio digital contemporâneo quanto as escolas são o modo de trazer finalmente a discussão social política. Repreendê-los seria, irrevogavelmente, contra os ideais marxistas de conscientização. 

Portanto, o vício tecnológico comandado para o contínuo alienamento do cidadão “apolítico” brasileiro e mundial com as atuais polêmicas geopolíticas e a proposta de um Estado com escolas sem partido colidem com o cerne da teoria marxista de liberdade consciente política. Gramsci é o político que em seu legado deixa claro que, definitivamente, não é pelo caminho da mediocridade e do obscurantismo que as escolas melhorarão. Não é através da negação da política que se fará uma política adequada e digna de cidadania coletiva. O fundamentalismo da resolução desses dois problemas que percorrem o atual cenário brasileiro se daria através, portanto, do pensamento gramsciniano, defendendo a liberdade de uma sociedade civil ser devidamente e politicamente guiada tanto em um século tecnológico, quanto em um momento de crises institucionais.  

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Eternidade: coisas boas e coisas ruins


Hoje o tempo voa. Bate asas tão aleatoriamente que muitas vezes nem avistamos o horizonte em seu perfeito declínio. Embora o conhecimento humano já tenha capacidade suficiente para declarar que nenhum ser vivi infinitamente, a sociedade atual está transbordando minutos. Cada sorriso possui seus milésimos e segundos acumulados no interior para serem desperdiçados. É como se cada momento perdido fosse uma pressão impiedosa de nossos relógios para com nossas vidas que tão sutis celebramos. 
Um minuto a menos, outro a menos, e outro, e outro, e outro...
O encantamento do homem pelo prazer do viver se torna superior àquela capacidade de compreender que a eternidade nunca será presenciada por alguém. Sabemos que ela existe neste mundo de hipocrisia e perdão, mas nunca teremos a habilidade - se é que isso é algo digno de talento - de enxergar o fim deste desejo jamais anulado, até porque a eternidade é eterna e assim será para sempre. Você entende a maestria da eternização.
São os infinitos que amedrontam as ambiguidades da vida. Esta é a polêmica indefinida do infinito do amor. Pois o mesmo é mais forte que o infinito dos números. O mesmo segue seu contínuo sentimento. O mesmo apenas acontece: amamos e somos amados, às vezes infinitamente. Sentimentalismo talvez seja isso: um infinito desconhecido sem um pingo de razão. A infinidade numérica, repleta de motivos, é um amontoado de algarismos que se seguem porque possuem uma ordem, uma padronização matemática, um eixo que se desencadeia do menor ao maior, do zero ao infinito que se queira chegar. Da onde vem o infinito metafórico? Provavelmente da não compreensão, do desconhecimento, do rancor guardado ou da paixão engolida a seco. É através do sofrimento que a saudade nos habita e do amor que nos alucina.
Veia que deseja ou sangue que pulsa? Talvez seja ao contrário, mas para algumas pessoas a ordem não importa. Porque assim que funciona o sentimento em terra firme: nem os fins e nem os meios são indispensáveis quando a finitude nos atinge. Quando perdemos aqueles que deram e dariam de tudo para que a infinidade da relação fosse estabilizada e nunca mais danificada por ninguém, nem pelos deuses ditos lá em cima. Camões já dizia que o amor ardia como fogo e a cegueira nos era imposta para que o incêndio queimasse a pele, tão peculiar e tão insensível como uma ferida que dói e não se sente. E o quão destruidor é não ouvir a sinfonia da voz daqueles que partem para a constelação acima de nós? Não refletir os olhos na pupila que transparece a esperança e os motivos? É temer a felicidade que resulta da angústia de continuar a vida. E nós vamos rindo das meticulosidades temporárias da graça de viver. Mas haverá sempre o momento final de cada gargalhada e de cada escalada ao topo do mundo onde perceberemos que eternizar um sorriso é muito mais abrir mão da realidade do que abraçar a insanidade.
O tempo? Implacável. Afasta corpos e almas. Afasta aqueles com quem aprendemos a lutar e a retirar de qualquer dicionário próprio a palavra desistir. Dias passam a não ser mais dias, porque manhãs passam a ser uma única noite. É a lição que nem ele, o tempo, consegue concretizar no livro de aprendizados humanos. É o vazio irreparável que eterniza a concepção: a vida é uma questão de laços invisíveis e eternos em qualquer dimensão.
Contudo, acredito que o principal conceito para você seja a falha humana. O que poucos sabem e muitos ignoram é a capacidade incrível do ser humano de prometer falhar. Prometer errar constantemente e dedicar parte das 24 horas diárias à imperfeição. A humildade ultrapassa a capacidade de qualquer texto ou conjunto de palavras sem coerência, porque mostra aquele que sempre está disposto a aperfeiçoar. Saber que nada se sabe – frase essencial na contemporaneidade brasileira – é também um artifício para a evolução. O medo, por sua vez, não é admitir. É assumir muitos esquecimentos e jamais enterrá-los junto aos fracassos. Obrigada por me ensinar isso.
À eterna professora, mãe, amiga e inspiração. Acima de quaisquer palavras de saudade e necessidade está a gratidão. Maria da língua castelhana e do abraço inesquecível. O pudor humano revela o verdadeiro caráter da lamentação humana quanto ao tempo e às oportunidades perdidas ou às palavras não ditas. Se o tempo hoje realmente voa e bate asas, onde está a crença fiel da eternidade de alguns sentimentos? A resposta é irrelevante em palavras e muito significativa quando sentida, porque você me deu uma aula sobre como eu sempre serei eu mesma à medida que não sou a mesma quando outro minuto passa. Pequenas coisas e pequenos infinitos que jamais esqueceremos.
Tempo irreparável de coisas boas e coisas ruins. Isso também é eterno.

À minha eterna Maria.



sexta-feira, 23 de junho de 2017

Operação Lava Jato: Os homens não são anjos

            A Operação Lava Jato tornou-se a polêmica mais assistida nos últimos anos do cenário político-econômico brasileiro. Investigações sobre o maior esquema de corrupção envolveram uma série de especulações sobre toda a rivalidade e vitalidade do sistema democrático nacional, reiterando, sobretudo, a grande institucionalização da corrupção no Brasil.  Desse modo, o questionamento sobre a natureza humana, sobre a separação dos poderes e sobre a constituição mista do governo articula-se aos segmentos federalistas que, em pleno século XXI, ainda questionam a eficiência do controle mútuo entre os três poderes do Estado.
Em 1787, a ratificação da constituição dos Estados Unidos através da obra O Federalista colocou em pauta o que mais tarde ficaria conhecido como a "Teoria dos pesos e contrapesos". E, ao enxergarmos o Brasil contemporâneo, lidamos com a seguinte frase que procura diferenciar sutilmente o conceito de República antes e após os autores americanos: “Os dois grandes pontos de diferença entre uma democracia e uma república são: primeiro, a delegação do governo, nesta última, a um pequeno número de cidadãos eleitos pelos demais; segundo, o maior número de cidadãos e a maior extensão do país que a última pode abranger” (MADISON, art. 10).  Ou seja, o que vinga adequadamente para o aprimoramento da cidadania não é uma república como aquela herdada pelo principado maquiavélico, onde o senso comum estabeleceu "o fim justificam os meios" como o ideal a ser seguido, mas sim a atual defesa norte-americana onde a soberania dos Estados está unida em prol da liberdade do povo. Portando, o que esta série de 85 artigos procura defender durante séculos de poderio estadunidense no mundo é: o equilíbrio, o controle e, principalmente, a união do Estado em através da independência.
O Brasil possui no 1° artigo de sua Constituição de 1988 o nome dado de República Federativa. E, assim, a federação passa a ter uma clara relação com o atual "descontrole" brasileiro batizado de Operação Lava Jato, uma vez que a balança dos três poderes da república federativa brasileira implica que a grande realidade nacional se correlaciona com o fato de que a capacidade de controle da população sobre seus representantes legislativos, executivos e judiciários, é praticamente nula. Como dito por Madison, "se os homens fossem anjos, não seria necessário um governo". Portanto, é essencial que a separação de poderes definida nos Artigos represente a distribuição regular do poder em distintos setores, pois não há uma divisão de poderes em hierarquias, mas sim em competências. E, por isso, inverte-se a questão brasileira de que, com inúmeros escândalos relacionados aos poderes executivo e legislativo, tem-se uma evidente independência jurisdicional do poder judiciário, o que quebra o critério dos três poderes expostos por John Locke e aperfeiçoados por Mostesquieu.
A heroicização de juízes e magistrados que hoje possuem uma autonomia e um poder concebido pela população no combate ao esquema de lavagem de dinheiro intensificou uma certa superioridade do sistema judiciário. Existe, portanto, como descrito em O federalista, uma certa interferência do Judiciário na produção do legislativo, visto que o primeiro é o Guardião da Constituição e tem o poder de se declarar contra leis do legislativo ou atos do executivo. Isto é, sob investigação da polícia federal brasileira e sob os olhos do povo que reivindica justiça, o judiciário resguarda e limita a legitimidade/índole dos outros dois poderes; tudo em nome da continuidade do Estado de Bem-estar social garantido pela Constituição federal.
Ademais, a cassação de políticos e empresários da Operação Lava Jato coloca em prática a judicialização da política, provocando um grande risco para a democracia, uma vez que não existem controle para os controladores, tais como no Ministério Público do Brasil. No processo de investigação no sistema judiciário, o réu terá direito à ampla defesa das acusações e a se manifestar sobre cada alegação e prova oferecida pelo MP. Contudo, pode também optar por uma colaboração premiada, na qual o "escambo de justiça" torna-se o mais ideal exemplo da vontade de prejudicar alguém, tanto em épocas de crise quanto em épocas de eleição.
Desse modo, a engenharia de divisão de poderes e o controle mútuo proposto pelos federalistas tornaram-se uma guerra de poderes nacionais. Os freios e contrapesos estão de fato sendo utilizados como artifício de um lado da moeda, mas a politização da justiça simboliza um grande protagonismo judiciário e magistral. O momento delicado do país tende a ignorar o fato de que os meios de ataque precisam e devem ser proporcionais aos meios de defesa, fazendo esquecer que a limitação é essencial para entender-se que nenhum homem é anjo, nem mesmo aqueles que hoje julgam, acusam e prendem os delatores, doleiros, políticos e chefes de empreiteiras. A lava jato é um típico exemplo de colocar-se em dúvida não só o federalismo americano, mas também a singularidade do ministério público e a independência do judiciário brasileiro.