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segunda-feira, 29 de julho de 2013

E o tempo passa

- Vovó, onde eu guardo esse?
- Acho que na segunda prateleira é melhor, querida.
- Está bem. Mas é pesado esse livro, viu!
- Nem me fale! Nem sei como agradecer por estar me ajudando a organizar esses livros.
- Magina, vovó. Os testes só começarão em Abril. Ainda tenho tempo.
- Graças a Deus! Alguém precisa ajudar essa velha.
- Velha? Nada disso! 60 anos não é nada, vovó!
- Eu também achava isso até sofrer as consequências da velhice. Depois você percebe que 60 anos, na verdade, é tudo.
- Tenho certeza que a senhora viverá eternamente, vovó.
- Bem que eu gostaria, querida.
- E vai! Eu lhe prometo.
- Ah! Então tudo bem! Com você prometendo, não preciso me preocupar.
- Certeza. Hum...onde eu coloco esse?
- "Romeu e Julieta"? Este é um clássico! Vou levá-lo até o escritório. Deixe em cima daquela pilha...
- Está bem. E este? Nossa, este está até preto! Você nunca limpou este quarto, não?
- Sinceramente? Não.
- Espere.
- O que foi?
- Sem ofensas, vovó, mas que título é esse?! "A caneta do meu chefe"? Eu sei que não devemos julgar o livro pela capa, mas tudo tem um limite.
- E eu nem sei como isso veio parar aqui! Nunca o vi.
- Doação?
- Com certeza!
- Vovó, posso fazer uma pergunta?
- Claro, minha filha.
- Por quê a senhora tem um livro chamado "Agarrando os homens com poder"?
- Nossa! Esse livro ainda existe?
- Está aqui. Veja.
- Acho que esta relíquia tem uns 30 anos, no mínimo.
- E você não respondeu a minha perguntar...
- Bom, eu ganhei esta polêmica de um amigo do ginásio. Ele era louquinho por mim! Até me pediu em casamento! E nós éramos dois jovens de 18 anos...
- Como?! Que absurdo...
- E sabe qual é o pior?
- Diga...
- Ele era incondicionalmente lindo!
- Vovó!
- O que foi?! É a mais pura verdade. Meu Deus, nunca me esquecerei daqueles olhos azuis! Como vocês, adolescentes, chamam os homens bonitos hoje em dia, mesmo? Ah! Gato!
-  Meu Deus! Nunca pensei que ouviria a minha avó dizer "Meu Deus" e "Gato" na mesma frase.
- Pare de drama, menina! Estou lhe dizendo a verdade. Os homens de antigamente eram milagrosamente lindos.
- Está bem, vovó. Já entendi...
- Mas, e você?! Duvido que não tenha um rapaz correndo atrás de você, menina.
- Não acredito que estou tendo esta conversa com a minha avó.
- Ah, por favor! Sou velha, sim. Admito que sou. Mas eu também sou gente.
- Não quero fal...
- Algo que me diz que você está bem encabulada!
- Vovó! Não!
- Está sim! Olha como está vermelha.
- E é nesse momento que eu me pergunto quais são as vantagens de ter uma avó descolada.
- Está bem! Está bem! Encerramos o assunto, então.
- Grata.
- Bom, quer me ajudar a acabar de arrumar esta baderna, ou não? Está brincando de estátua agora?!
- Engraçadona, você!
- Vamos, pegue aqueles da caixa...
- Só mais uma coisa, vovó: O vovô sabe deste seu amor passageiro?
- Não! Isso já foi há muito tempo, menina!
- Entendi.
- Não conta para o seu avô, mas aquele homem dava de dez à zero nele.
- Chega, vovó. Vou para o meu quarto.
- Espere! Você não vai me ajudar mais? Tenho 60 anos de idade!
- Idade é só um número, vovó. Só um número...

Os infinitos

Texto baseado no livro "A culpa é das estrelas" de John Green.

   Hoje o tempo voa. Bate asas tão aleatoriamente que muitas vezes nem avistamos o horizonte em seu perfeito declínio. Embora o conhecimento humano já tenha capacidade suficiente para declarar que nenhum ser vivi infinitamente, a sociedade atual está transbordando minutos. Cada sorriso possui seus milésimos e segundos acumulados no interior para serem desperdiçados. É como se cada momento perdido fosse uma pressão impiedosa de nossos relógios sobre as vidas que tão sutis celebramos. 
  Um minuto a menos, outro a menos, e outro, e outro, e outro...
  O encantamento do homem pelo prazer do viver se torna superior àquela capacidade de compreender que a eternidade nunca será presenciada por alguém. Sabemos que ela existe neste mundo de hipocrisia e perdão, mas nunca teremos a habilidade - se é que isso é algo habilidoso- de enxergar o fim deste desejo jamais terminado, até porque a eternidade é eterna e assim será para sempre.
   São esses os infinitos que amedrontam as ambiguidades da vida. Entretanto, existem divergências entre algumas infinidades. Esta é a polêmica indefinida do infinito do amor. Pois o mesmo é mais forte que o infinito dos números. O mesmo segue seu contínuo e eterno sentimento. O mesmo apenas acontece. Amamos e somos amados, às vezes infinitamente. Sem razões e pensamentos.
   Sentimentalismo é isso: um infinito desconhecido sem um pingo de razão.
   Portanto, a infinidade numérica é drasticamente diferente. Esta é repleta de motivos; são algarismos que se seguem porque possuem uma ordem, uma padronização matemática, um eixo que se desencadeia do menor ao maior, do zero ao infinito que se queira chegar- embora este nunca poderá ser encontrado.
   Por isso, não devemos confundir ambos, pois alguns infinitos são maiores que outros. Porque algumas eternidades são mais significativas que outras.
   Não há como encontrar o infinito do amor. Ele é invisível, obscuro, misterioso e digno de uma lembrança sem limites. Ele é um anonimato sem formas ou desenhos, mas mesmo assim, sabemos que é lindo.
   Sua beleza é exatamente a incapacidade de ser enxergada. Como tapar os olhos para as surpresas.
   Portanto, imploro para que nunca encontremos o fim do sentimento mais especial. Assim, poderemos amar cada vez mais e mais e mais e mais. E, acima de tudo, admirar a ausência daquele medo de nunca encontrar o limite.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

O observador

  
Se ela estivesse frustradamente abaixo ou talvez escondida por pedaços que chamávamos de anonimatos do céu, eu não sei. Mas cada brilho perdido e lançado aos nossos olhares incrédulos e tristonhos era uma glória permanente.
Eram infinitos e impossibilidades que eu observava em um subúrbio universal acima de meu reino posterior. Eram estrelas e nuvens que imergiam a cada minuto na agonia de uma guerra entre ambas. Pois essas estrelas tornavam aqueles anonimatos do céu em traços mortos ao breu da noite. Entretanto, estas que nos encantavam ao seu irrevogável e futil brilho, também poderiam ser evitadas. Evitadas sutilmente, é claro.
Não me recordo se vivi em uma era de escuridão estática. Mas, acima de meu reino, havia apenas um brilho ao anoitecer.
E eu era  um verdadeiro observador de seus meros e radiantes, pelo o que eu chamava, vantagens celestiais. Depois, após o crepúsculo constante e a escuridão da noite transparecer, ela se posicionava no mesmo cantinho universal presenteado à sua beleza.
Aquela estrela não era apenas o único brilho de minha escuridão. Sua humildade de se apresentar acima de mim era, de uma forma complicada, arriscada.
É como uma borboleta abusada: para viver, a lagarta precisa esperar pelo momento certo de criar as asas e voar para o além. A minha estrela também.
Libertada de um mundo dominado pela escuridão, a borboleta poderia voar para o longe, para onde sua beleza única fosse mais apreciada pelo olhar humano. Ela então, permanceria voando sobre o céu que a elogiasse diante de uma sociedade curiosa.
Evidentemente, o ponto brilhante acima de minha casa seria uma estrela se aproveitando da escuridão e do isolamento de meu reino para compartilhar sua forte esperança de ser única. Como uma rosa branca em um buquê de rosas vermelhas. Como um sorriso meigo no meio de uma população mútua.
A estrela era o único brilho deste mundo deprimente.
E este é o motivo pelo qual eu me sentava todas as noites no chão da rua, independente da sensação térmica que meu corpo captasse, para observá-la. A razão por eu estar ainda ali, neste mundo desprezível, era o seu brilho.
Para mim, aquela estrela representava minha única esperança. Ela me dizia todas as noites que, em uma escuridão como aquela, seu brilho era como a última luz de um túnel infinito. Ela era o motivo de acreditarmos em milagres. Ela era a pureza enterrada em um solo de pecados.
Seja quem for que a colocaste ali, bem acima de mim, eu devo admirar até meus últimos segundos de observador.
Um observador inútil para a humanidade, mas importante para um único brilho. Ou uma única esperança.
Pois esta, tornava a minha escuridão finita.