Crônicas



Estou sentado na cadeira preferencial para idosos no ônibus, observando os rostos ao meu redor.
Na realidade, nem sei o que,  e por que vim parar aqui. Talvez seja um pouco entediante ficar o dia inteiro sentado na mesma poltrona, na mesma sala, na mesma posição e com o mesmo humor. Estou com vontade de deixar que o motorista me leve adiante, até o além.
Até que os defeitos alheios são engraçados de observar. Uma mulher a minha frente está dormindo com o lado direito do rosto encostado na janela de vidro e nem um amavio irá acordá-la. Ela deve estar a uns dez quilômetros do destino e ninguém se deu o trabalho de perguntá-la se vai descer no próximo ponto ou passar a noite em um depósito de automóveis públicos.
Um homem atrás de mim está com o filho no colo, que não para de chorar um minuto. O garoto pede para ir na janela e o bom pai o coloca no chão. Percebo então, que não era um homem. Uma mulher musculosa, como uma amazona do Indiana Jones, é uma mãe e não um pai.
A minha esquerda, uma vovozinha com a coluna retíssima, não tira os olhos do aviso “Proibido fumar neste transporte”. A senhora, com uma expressão de quem não comeu algo muito salobre, parece não entender o aviso.
De repente, um homem de terno, com uma voz de intectualidade diz num tom alto:
- Pelas barbas de Merlim! Quem fez isso ?
O ônibus inteiro se dirige ao homem de terno, quando a mulher amazona diz:
- Eu não sei, mas que dá “pra” sentir dá!
- Nossa, mãe! Alguém nesse ônibus está precisando ir ao banheiro.- Ri seu filho.
- Não diga isso, Manuel!
- Que inferno! Quem foi o infeliz que soltou gás carbônico intoxicante aqui enquanto todas as janelas desse ônibus estão fechadas?!
Pronto, a mulher que estava dormindo acorda e o motorista grita:
- Eu gostaria muito de não morrer, sociedade suína! O pior é que as janelas não abrem.
- Que ótimo! Vou morrer dopada.- Diz a mulher à minha frente quando se levanta.
- Que morte! Um dia meus netos vão descobrir que a vovó deles morreu em um ônibus devido a uma falta de oxigenação.- Reclama a mulher amazona.
- Pelo amor de meus futuros filhos, moço! Para o ônibus!- Grita o garotinho.
Imediatamente o motorista obedece. O ônibus estaciona muito mal em frente ao Mc’donalds, as portas se abrem, e todos vão correndo para fora em busca de ar respirável.
Menos eu, que fico sentado na mesma posição refletindo sobre a polêmica que causei. Talvez seja por isso que eu seja tão sozinho.



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